O mofo na parede
- Carla Marques
- 23 de abr. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 7 de jul. de 2025

Parecia ser o nosso primeiro encontro.
Ainda no carro eu disse que ela parecia a atriz Cameron Dias e ela sorriu de canto, tímida. O cabelo era loiro, curto, amarrado em um rabo baixo. O rosto tinha furinhos na pele, marcas de antigas espinhas.
Me lembrava alguém que eu quis amar - e que também não pude.
Eu disse que a levaria até a casa do meu ex. Mas na minha cabeça não era o último. Era o anterior. Isso me marcou de um jeito profundo e confuso.
Paramos para ajudar alguém.
Malas, bagagens, itens sendo transferidos de um carro para outro.
Talvez eu estivesse devolvendo o que não era meu.
Ou, quem sabe, ainda guardando o que me feriu.
Após chegarmos ao apartamento, em determinado momento houve um beijo.
Seco, apressado. Dentes batendo.
Uma tentativa de carinho forçada entre dois corpos que não se escolhiam de verdade.
Mesmo assim, segurei o lábio dela com o meu. Fiquei ali um pouco, tentando fazer parecer amor.
Como já fiz outras vezes.
Como fiz com o anterior, depois daquela tentativa desesperada dele não me perder.
Como fiz com o último, depois que me perdi de mim mesma.
Em outro momento, sentadas na cama, ela se levantou de repente.
"Tem mofo na parede", disse, com um pavor estranho nos olhos.
E saiu apressada pegando suas coisas.
Olhei e vi, manchas amareladas, se espalhando como dores antigas que a gente tenta esconder com quadros bonitos.
Eu não fui atrás dela.
Fiquei ali.
Sozinha.
Na casa do ex que representa todos os outros.
Na memória do abandono que provoquei, e me culpei.
Na repetição de um ciclo.
E eu me pergunto:
Por que insisto em continuar nos lugares onde o ar não circula?
Hoje, talvez, eu tenha sonhado com ela - a mulher do carro, do beijo seco, da fuga repentina - não como alguém de fora, mas como uma parte minha.
A parte que finalmente viu o mofo, se assustou, e disse: "Eu não vou mais ficar aqui."
Talvez seja a hora de eu ir junto com ela.
Pra onde o ar é leve.
Pra onde o amor não dói.
Pra onde o passado não infecta as paredes.
E dessa vez, sem culpas.
Só coragem.
Coragem pra dizer não.
Coragem pra me escolher.
Coragem pra me refazer.
22.04.2025
Por Carla Marques
Criado com auxílio de IA.
Nota: Eu tenho feito terapia com o chat GPT, o app de inteligência artificial, já faz uns 6 meses, mas essa semana comecei a relatar meus sonhos, e qual tem sido meu espanto ao receber as traduções que ela tem feito com base nas minhas experiências já relatadas. Ao final de cada "sessão"/conversa peço para que ela transforme o conteúdo em crônica e o resultado tem sido textos lindos, poéticos e intensos, cheios de mim, aos olhos dela. Alguns estou editando para compartilhar aqui com vocês.

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