top of page

Pessoas em Situação de rua e como conheci Ivan Regatto

  • Foto do escritor: Carla Marques
    Carla Marques
  • 15 de jul. de 2020
  • 4 min de leitura

Atualizado: 31 de out. de 2020

Meu coração sempre aperta quando o assunto é moradores de rua. Minha mente procura entender o que leva essas pessoas para tais condições. A vida me deu a oportunidade de conhecer de perto a história do Ivan Regatto. Um cara inteligente e talentoso que infelizmente teve esse destino. Compartilho com vocês nosso primeiro diálogo e um pouco do trabalho desse artista incrível.

Sábado, 03 de agosto de 2019. Estou andando em direção ao ponto de ônibus na alameda (Niterói – RJ). Sai debaixo do viaduto um indivíduo sujo e mal vestido. Ele atravessa a rua, sorridente e eufórico, vindo ao meu encontro. Eu retribuo o sorriso e o cumprimento. Ele pede um cigarro. - Você vive ali? Eu pergunto. Apontando as camas improvisadas. Ele diz que sim e me convida pra ir ver seus desenhos. - Você sabe que dá um pouco de medo conversar com desconhecidos que vivem nas ruas, principalmente para uma mulher, né? - Me chamo Ivan, sou de São Paulo, nasci na Bahia, Faço aniversário 26 de agosto, sou leonino. Agora já sabe quem eu sou. Atravessamos a rua e fico deslumbrada com o seu trabalho todo em grafite. -É arte abstrata, conhece? Eu digo que sim ainda fascinada com um sorriso de orelha a orelha. - É um olho ali!? - Tem que ter um olho, em todos os meus desenhos eu coloco. - O olho que tudo vê. - Exatamente! Eu sou bruxo, sabia? - Olhaaa. Mas tipo Wicca ou tipo magia hermética? - Satanista mesmo. - Feitiçaria? Mas fazia maldades? - As pessoas acham que satanismo é do mal. Mas são as pessoas que mais pregam o bem. – Enquanto diz isso pega um livro bem pequeno, de capa dura, enquanto folheio, leio as palavras Jesus em todas as páginas. Era como uma coletânea de versículos. Ele começa a mostrar o seu material de trabalho, as doações que recebe, enquanto isso um de seus amigos se aproxima para pedir cigarro. Após conhecer o seu amigo, que me diz que ali eu só vou encontrar trabalhador e sofrimento, sou apresentada às demais pessoas. Então pego vários cigarros e entrego ao Ivan. Ele diz que vai ficar com todos para ele e eu o repreendo. “Olha, tem que compartilhar com os amiguinhos.” - Eu sou anarquista. Sabe o que é? É pior que comunista. Eu só não compartilho a mulher. De resto, tudo! Eu estou tão intrigada... A alegria com que ele se expressa, essa pureza no olhar. Como pode viver assim? Porquê? Fico curiosa pelo seu passado. - O que o trouxe até aqui? - Vim de São Paulo procurar a minha filha. Minha mulher me enganou e sumiu. Eu estava no RJ, sofri um acidente. Tenho dois parafusos aqui. – Mostrou a cicatriz enorme no ombro – Fui atropelado. Foi de propósito, eu sei. As pessoas não gostam de ver a gente na rua. O serviço de saúde de vocês é horrível hein! Vendi um desenho e vim para Niterói. Estou aqui há uns dois meses. Eu digo que ele é muito corajoso, em largar tudo para se arriscar assim. Ele abaixa a cabeça. “Você não é a primeira que me diz isso.” - Você sabia que muitos pintores famosos começaram nas ruas? Tipo o – ele citou alguns artistas, que minha memória não permite relatar. Fiz uma pesquisa rápida e superficial e não encontrei nenhum nome. Mas percebo a analogia, pois Van Gogh , por exemplo, viveu seus anos em total anonimato, e mesmo às voltas com distúrbios mentais pintou mais de 500 obras. Sendo expostas e ganhando fama mundial apenas após sua morte. - Eu sou bipolar. Diagnosticado. Tomava remédios. – Ele diz. - Olha... isso é sério! Mas então está explicado, a coragem também é loucura. Nós rimos. - E como você faz a higiene? - Ali no Caps. Eles oferecem atendimento psiquiátrico entre outros. - Ah que bom! E você frequenta? Ele diz que sim, que recebe remédios e faz tratamento com psicólogos. Falo sobre as suas unhas sujas, e percebo nele um certo constrangimento. Ele sugere: - Tive uma idéia então. Ao invés do material para desenho, e se eu trocar por um cortador de unhas? Eu dou risadas. Sugiro então que ele mostre seus desenhos para mais pessoas. Depois do bosque é bem movimentado, e o bosque é tão lindo. Você gosta de natureza? - Eu amo a natureza. Você sabe onde eu nasci? Eu sou da Chapada diamantina. Pintava embaixo da cachoeira da fumaça, dentro da névoa. Eu sou eremita. Nesse momento toca o alarme de um carro. E nós nos entreolhamos. - Eu não gosto é desse barulho. Ele diz. - É. Barulho de cidade é um saco. Ele me dá um quadro de presente, me pede um abraço, que dou (confesso que penso em sua sujeira enquanto o abraço, mas felizmente não sinto nenhum cheiro ruim). Ele me pede para comprar algo na padaria. Seguimos caminhando, ele não me deixa guardar o desenho na bolsa. Diz que tenho que carregar na mão para que todos vejam. - Você só quer ser notado, né? - Eu só quero ser reconhecido como artista, e não como um louco. Ele me pede bebida e cigarros. E eu digo que isso não posso, não me sinto confortável em dar essas coisas pois estou lendo um livro Rare krishna, que nos adverte quanto à responsabilidade das nossas doações. - Já fui Rare Krishna. Andava de cabeça raspada e tudo. Ele diz. - Sério? Você já fez de tudo então né. Olha, eu entendo que às vezes dá vontade de fugir dessa realidade. Mas estamos aqui por algum motivo afinal. Temos alguma missão. (...)

"CUIDADO:

Há perigo neste lápis, O uso deste produto Pode causar revolta.

Não há níveis seguros Para o consumo dito Desta substância licita.

Na ponta deste lápis Contem a minha raiva E causa dependência

O uso incorreto deste lápis Pode levar a vários danos; Inclusive o de ser Poeta."

(Ivan Regatto)

Meu maior desejo é a ressocialização do Ivan e de todas as pessoas que se perderam de si mesmas. Esse não foi nosso último encontro. Nos tornamos amigos, infelizmente não consegui tirá-lo das ruas. Ainda. Ivan está no facebook, é possível conhecer o seu trabalho e a sua história antes de morar nas ruas. E às vezes, quando tem acesso à internet, ele até responde as mensagens.

Comentários


Não é mais possível comentar esta publicação. Contate o proprietário do site para mais informações.

© 2020 por Carla MSBS. Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page